SAVANA
Maputo, 16 de Maio de 2025

NOVO EMBAIXADOR DA UCRÂNIA EM MOÇAMBIQUE: "ANTES DAS NEGOCIAÇÕES, PRECISAMOS DE UM CESSAR-FOGO"
A invasão da Rússia à Ucrânia vai já no seu quarto ano, sem nenhum sinal de estar próxima do fim. Esforços diplomáticos ganharam um novo ritmo com a chegada de Donald Trump à Casa Branca em Janeiro, mas mesmo assim os dados mudam todos os dias, tornando difícil qualquer previsão sobre quando mísseis e drones deixarão de cruzar os céus do leste europeu, destruindo sonhos, vidas e valiosas infra-estruturas. A Rússia continua fixada nos seus objectivos máximos desde o início da invasão a 24 de Fevereiro de 2022, enquanto a Ucrânia, cada vez mais desesperada, continua a tentar resistir até onde puder. Nesta entrevista com o recém acreditado embaixador da Ucrânia em Moçambique, Rostyslav Tronenko, procuramos explorar algumas das principais questões relacionadas com esta guerra. Segue-se parte da entrevista, com o jornalista Fernando Gonçalves:
O recente acordo de minerais raros, com os Estados Unidos, oferece as garantias de segurança que a Ucrânia sempre procurou obter?
Este acordo foi exaustivamente negociado de modo a respeitar a soberania e integridade territorial da Ucrânia. E como é preliminar, é apenas sobre a criação do fundo de desenvolvimento e de reconstrução da Ucrânia, mas abre caminho para outros acordos mais aprofundados, e também abre a possibilidade para o fornecimento de armamento americano. Essa é uma das garantias nesta luta desigual que travamos desde 19 de Fevereiro de 2014, quando 5% do nosso território, nomeadamente a Re- pública Autónoma da Crimeia e a Cidade de Sevastopol, foi ilegalmente ocupada pela Rússia.
Qual foi o motivo dessa ocupação?
Por detrás da agressão russa, há interesses económicos; existe muita falácia e propaganda que diz que é para proteger os interesses da população falante da língua russa, ou que a Península (da Crimeia) sempre pertenceu ao império russo. É tudo mentira.
Que interesses económicos estarão em jogo?
A vantagem que a Península proporciona, com as suas águas territoriais e Zona Económica Exclusiva no Mar Negro, e as riquezas minerais e do petróleo e gás. Já na véspera da ocupação tinham sido seleccionadas as empresas vencedoras dos leilões para a exploração do petróleo e gás nas águas adjacentes à Península. Foi pelas mesmas razões que a Rússia ocupou mais 2% do nosso território, nas províncias de Lugansk e Donetsk, também ricas em minerais, incluindo carvão. A futura exploração desses recursos, através do acordo com os Estados Unidos, é também uma das garantias da nossa segurança. Antes, já tínhamos assinado um acordo semelhante com a União Europeia, com quem temos uma associação política e Zona de Comércio Livre, que foi ainda reforçada para dar certa preferência aos produtores ucranianos, para permitir que o país consiga financiar a guerra. É isso que demoramos nas negociações com os Estados Unidos, porque não queríamos assinar um acordo que colocasse em que causa as nossas obrigações junto da União Europeia.
Significa que já havia muitos avanços no projecto de adesão à União Europeia?
Como país que fica no cruzamento entre o Mar Báltico e o Mar Negro, entre o norte e o sul, o Mar Negro oferece uma saída para o Cáucaso, Mediterrâneo e Médio Oriente. O outro do Oeste para o Leste, é da Europa para a Ásia; muitos políticos ucranianos acreditavam que esta geografia dava vantagem à Ucrânia, e que conseguiríamos, num ambiente pacífico e de estabilidade política, manter esse equilíbrio de comércio com mercados tão vastos, incluindo o norte da Europa, a Rússia e o Médio Oriente. Isso tudo seria possível se não fosse esta política revisionista da Rússia, cujo líder acredita que a maior catástrofe do século passado foi o desmoronamento da União Soviética, não a primeira e a segunda guerra mundial, o holocausto, a ocupação da Hungria e da Checoslováquia, a invasão ao Afeganistão, ou a catástrofe nuclear de Chernobyl.
Apreciamos muito a vontade do presidente Trump
Recentemente, uma cimeira que tinha sido programada para Londres foi cancelada à última hora, supostamente por decisão do presidente Zelensky. Qual foi o motivo?
O secretário de Estado Marco Rubio, à última hora, cancelou a sua deslocação. Isso acontece com as agendas de políticos de alto nível. O importante é que nós apreciamos muito a vontade do presidente Donald Trump e da sua administração de pôr fim a esta guerra injusta, que com toda a razão ele nos faz lembrar que é uma tragédia que está a ceifar vidas de dezenas de milhar de jovens. Desde que no dia 11 de Março recebemos a proposta do governo americano, aceitamos incondicionalmente o cessar-fogo de 30 dias. Do outro lado ouvimos um "sim, mas..." Inúmeras condições e todas as metas que o país agressor anunciou quando começou esta guerra; que a Ucrânia deve abdicar das suas forças armadas, não pode ser dona do seu próprio destino, não pode escolher as suas próprias alianças, etc. Essa falácia continua, em vez de aceitar o cessar-fogo e dizer, "vamos calar as armas" e tentar negociar. Já tivemos propostas para um cessar-fogo de 30 horas para a Páscoa, e agora de três dias, porque alguém precisa de realizar uma parada militar.
Como é que a Ucrânia responde a estas iniciativas?
O presidente Zelensky pergunta, "porquê esperar o dia 9 de Maio?" A propósito, para nós e toda a Europa, também é Dia da Vitória sobre o Nazismo, devemos anunciar agora um cessar-fogo de 30 dias, e aproveitarmos este tempo para o diálogo. Mas desde o dia 11 de Março, que a Rússia só tem estado a reforçar os seus ataques; bombardeamento a alvos civis nas cidades, porque não consegue avanços significativos no campo de batalha, usa o seu poder militar contra infra-estruturas civis, o que é terrorismo de Estado puro.
Para além dessas condições, o presidente Putin insiste que a Ucrânia deve reconhecer a soberania da Rússia sobre os territórios ocupados e retirar as suas tropas. Não seria isso uma fórmula para se alcançar a paz?
É uma fórmula para ganhar tempo. Desde a ocupação da Cri- meia, que o presidente Putin se colocou num beco sem saída. A única saída para ele é continuar com esta agressão, porque assim legitima a sua contínua presença no poder; ele está no poder há 25 anos, e já conseguiu alterar a Constituição para permanecer até 2036. Também precisa de mostrar que é um líder forte, com uma projecção internacional que permite melhorar as relações bilaterais com os Estados Unidos, o que por sua vez vai fazer com que ele consiga ter o que desde 2014 sempre pretendeu: a segunda versão de Yalta. Na Conferência de Yalta (em Fevereiro de 1945), os três aliados, Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Joseph Stalin decidiram sobre o destino
da Europa pós-guerra, deixando o Leste e o Centro para a esfera de influência soviética.
Este é um dos principais motivos da guerra, porque a Rússia diz que o ocidente está a ocupar o seu espaço…
E o que diz a Carta das Nações Unidas? E o Direito Internacional? Então, em outras regiões, inclusive em África, aqueles países que são militarmente mais fortes e têm essas ambições de hegemonia regional, por que é que não se podem comportar da mesma maneira? Há uma questão dos valores e dos princípios democráticos e do Direito Internacional e da carta das Nações Unidas. Todos estes instrumentos foram criados para garantir a paz no mundo. Nem sempre conseguimos, mas pelo menos havia uma certa estabilidade (...) A questão é muito mais do que o destino da Ucrânia, porque se deixarmos de nos defender, tal como preconiza o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, simplesmente deixamos de existir. Esta guerra sem nenhum respeito pelos princípios do Direito Internacional tem todos os sinais de um genocídio; quando as nossas crianças são deportadas dos territórios ocupados e submetidas a processos de adopção compulsiva e indoctrinação, para esquecerem as suas origens, língua e hino.
Mas o presidente Putin diz que o Direito Internacional foi arquitectado à imagem do Ocidente, pelo que não tem nenhum valor no novo mundo multipolar que ele pretende construir...
A questão é, em que mundo queremos viver? Claro que se a Ucrânia não resistir, não só vamos desaparecer como Estado soberano, mas também coloca uma ameaça à Europa, que nos últimos 80 anos viveu em paz, e não se preparou para a 3a Guerra Mundial. A Rússia invadiu a Ucrânia com um apelo à justiça histórica. Não existe noção de justiça histórica no Direito Internacional, e é muito perigoso para outras regiões como em África, que tem um passado colonial e influência de vários antigos impérios e colonizadores, e que tem a sua herança histórica. Imagine aplicar-se essa noção de justiça histórica, tentando rever- ter as fronteiras, pensando nas riquezas alheias.
Entrada na NATO
A Rússia sempre defendeu que a invasão à Ucrânia é também uma resposta à manifesta vontade da Ucrânia de fazer parte da NATO. Há algo que a Ucrânia poderia ter feito para evitar esta invasão?
Quando a Rússia invadiu, em Fevereiro de 2014, a Ucrânia não era membro da NATO. Desde os anos 1990, que tanto a Rússia como a Ucrânia estabeleceram comissões bilaterais com a NATO. Nós fomos dos primeiros a participar no programa que se chamava Parceria para a Paz. Quando o presidente Putin chegou ao poder, em 2000, ele próprio considerava a possibilidade da entrada da Federação Russa na NATO.
Desde a chegada ao poder do antigo presidente Viktor Yanukovych, que era pró-russo, a Ucrânia parou significativamente a sua cooperação com a Aliança Transatlântica. De qualquer modo, como Estado soberano e membro fundador das Nações Unidas, o povo ucraniano tem todo o direito de escolher a for- ma de aliança e protecção militar, especialmente depois de ter tomado a decisão de abdicar das suas armas nucleares e se juntar ao Acordo de Não Proliferação, ainda em 1994. Nessas circunstâncias, como é que a Ucrânia pode constituir ameaça à Federação Russa, com todo o seu potencial nuclear, que é o maior do mundo, e com um território tão vasto? Como é que a Ucrânia pode ser ameaça, se a Turquia, que também tem fronteira com a Rússia e é membro da NATO não o é, se os países bálticos não o são? Putin tem medo é de uma Ucrânia europeia, livre, soberana e próspera, porque o próprio povo russo vai lhe questionar, "porque é que os nossos vizinhos estão a prosperar, e nós continuamos atrasados?"
A Rússia diz também que está a lutar para defender os interesses das populações falantes de russo na Ucrânia, que são alvo de discriminação. Qual é a verdadeira situação desta população, e como é que ela é integrada na Ucrânia?
Aqueles que assistiram o filme "20 dias em Mariupol", que é uma cidade portuária no sul da província de Donetsk, aquela região foi originalmente habitada pelos gregos pontíacos. É como a Crimeia; os primeiros habitantes foram gregos, tártaros e turcos. A maioria da população de Mariupol fala russo, e o filme mostra as barbaridades cometidas pelos russos nos primeiros 20 dias da invasão, em 2022. Pela história da União Soviética, pelos crimes cometidos por Staline, pela russificação forçada, muitos cida- dãos nossos falam russo, assim como acredito que para além das suas línguas locais, há moçambicanos que também falam as línguas dos países vizinhos. O argumento da Rússia é pura falácia e tentativa de justificar a violação do Direito Internacional, a agressão e uma forma de neocolonialismo. Infelizmente, o senhor Putin não tem nada de atraente a oferecer para o futuro, para além da sua guerra de destruição, e de nos tentar levar de volta para o passado.
Em 2021, o presidente Putin escreveu um longo artigo em que se torna clara a sua crença de que a Ucrânia não é um Estado independente e soberano, capaz de tomar as suas próprias opções no campo da política externa. Que factores históricos sustentam esta atitude?
A liderança russa cobiça os re- cursos naturais e humanos da Ucrânia, porque apesar de todos os desafios e dificuldades de crescimento da economia durante a transição dos anos 1990, graças ao empenho da sociedade civil, tivemos um enorme progresso. Antes de cometer os crimes graves contra as minorias europeias como os judeus, ciganos e outros, Hitler introduziu a sua teoria da supremacia ariana. Putin tenta retirar da Ucrânia toda a nossa história secular, a nossa língua, e a nossa cultura. Enquanto diz que somos o mesmo povo, está a cometer crimes de guerra e genocídio. Mas isso não é novidade para a Rússia: lembremo-nos das duas guerras sangrentas na Chechénia. Faz-me lembrar o seu discurso na Conferência de Segurança em Munique, em 2007. Temos de o levar à sério naquilo que ele escreve e diz. Po- demos não gostar, mas temos de o levar à sério, incluindo as suas ameaças nucleares. Ele quer entrar na história como o grande líder, grande estadista. Só que não acredito que a história lhe dê essa honra. Assim que o Tribunal Penal Internacional (TPI) tomou a decisão de o proclamar um criminoso (...) vai ser difícil implementar essa decisão enquanto ele estiver ainda no poder, mas quem sabe? Infelizmente ele só entende a linguagem da força, por isso precisamos da união de todos os países que acreditam no poder do Direito Internacional, das Nações Unidas e do sistema de segurança criado depois da Segunda Guerra Mundial, que não é perfeito, mas que pode ser melhorado. Desde a renovação da nossa independência, em 1991, que nos esforçamos em tentar evitar esta guerra e não conseguimos, por isso é que há várias lições a tirar, inclusive para outras regiões do mundo, porque são agredidos aqueles que parecem fracos; o Estado precisa de se fortalecer, precisa de investir na defesa e segurança.
Uma das mais recentes propostas dos Estados Unidos inclui o reconhecimento de jure da soberania da Rússia sobre a Crimeia, e o congelamento do conflito ao longo da linha da frente. Estaria a Ucrânia preparada a considerar?
Antes das negociações, precisamos de um cessar-fogo, não de algumas horas ou dias, mas de meses. Em segundo lugar, seria um suicídio político para qualquer estadista ucraniano aceitar entregar o nosso território ao agressor. Sabemos qual é a situação na linha da frente, inclusive temos operações das nossas forças em territórios da Federação Russa. Mas aceitar essa violação do Direito Internacional, entregar os territórios das nossas províncias, que a Rússia nem controla totalmente, não. Há um sentimento de desespero, porque agora entramos no quarto ano da guerra aberta e o décimo segundo ano desde a ocupação da Crimeia, mas essa grande potência nuclear não consegue nem ocupar por completo as províncias de Lugansk e Donetsk, e está a pagar um enorme preço para conseguir ocupar por completo as províncias que eles se precipitaram a declarar parte do seu território. Para qualquer político, do governo ou da oposição, depois de tantas atrocidades, sofrimento e mortes cometidas pelo agressor na Crimeia e nesses territórios, como justificar, junto da população, essa entrega de bandeja ao agressor. Qualquer decisão que seja tomada sobre os nossos territórios, por qualquer outro país, incluindo o agressor, é juridicamente nula.
Apoio político e diplomático
Durante a sua visita à África do Sul, o presidente Zelensky disse que não havia pressão suficiente sobre a Rússia. O que mais se pode fazer?
Um país que se comporta como terrorista só entende a linguagem da força. Quando o presidente Zelensky fala do aumento da pressão, refere-se, em primeiro lugar, à união de todos os membros em torno da primazia da Carta das Nações Unidas e dos princípios e valores do Direito Internacional. Segundo, a pressão das sanções; aumentar o preço da guerra para o agressor, através de sanções financeiras, bancárias e no comércio, porque de contrário, estamos a alimentar a máquina da guerra e do terror. Também o apoio político e diplomático à Ucrânia é muito importante, não só nas votações nas Nações Unidas, mas também pela não aceitação da propaganda russa que tenta justificar a agressão e torná-la um novo normal; essas narrativas sobre a NATO e o Ocidente, teorias de conspiração só para vestir as suas políticas neo-imperialistas e neo- coloniais, disfarçadas de uma suposta preocupação a favor do Sul Global.
O presidente Zelensky foi criticado por ter ido à África do Sul, por se entender que este país não tem nada a oferecer para a solução da guerra. Qual foi o imperativo desta visita?
Houve críticas do Partido Comunista da África do Sul e algumas outras forças da oposição, mas isso é normal; a democracia é mais complexa que o autoritarismo, e pode haver várias opiniões diferentes sobre o mesmo assunto.
Mesmo na Europa, o que se disse é que o presidente Zelensky tinha prioridades, e a visita à África do Sul não era prioritária...
O momento coincidiu com um ataque em larga escala a Sumy, o que obrigou o presidente a regressar mais cedo. Mas daí se reveste a importância da visita, e como isso doeu ao país agressor, porque a África do Sul é importante na África Austral e no continente africano. A África do Sul preside actualmente o G20, é membro fundador dos BRICS, e em 2023 liderou a iniciativa africana pela paz. A deslocação do presidente Zelensky foi em retribuição à visita do presidente Cyril Ramaphosa, juntamente com outros líderes africanos, a Kiev e a Moscovo.
Acredita que África tem um papel a desempenhar na busca da paz?
Todas as vozes são importantes. E quando nos estamos a defender contra a agressão, qualquer gesto de apoio e de solidariedade tem muito valor; quando alguém está a ser alvo de uma agressão, e o outro estende-lhe a mão.
A Ucrânia possuía o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Em 1994, através do Memorando de Budapeste, abdicou dessa capacidade, em troca de garantias de segurança do Reino Unido, dos Estados Unidos e da própria Rússia. Aceita que foi um erro?
Talvez em vez de um Memorando deveria ter sido um Tratado com cláusulas mais fortes, e aprovado ao nível do congresso americano e dos parlamentos do Reino Unido e da Rússia. Aderimos ao acordo de não proliferação de armas nucleares, embora tenha sido um erro acreditar na boa vontade do nosso vizinho, com as suas promessas de que somos irmãos. Desde os anos 1990 que o seu comportamento já nos devia ter alertado; a ocupação da Transnistria, na República da Moldova, em 1992, e que continua até hoje, de parte da Geórgia e as guerras fratricidas contra a Chechénia. Mas relaxamos e descuidamos das nossas forças armadas, apesar de termos aprendido muito desde 2014. A resposta militar da Ucrânia contra a invasão, em 2022, foi uma surpresa muito desagradável para o agressor. Agora estamos a aprender muito rápido porque a guerra, a importância daquilo que acontece é também o exemplo da guerra moderna. E por que é que é im- portante para os outros? Porque é um exemplo sobre como se defender; e muitos aproximam-se da Ucrânia para aprender a se defender neste novo tipo de guerra tecnológica com recurso à inteligência artificial no campo de batalha.
Um dos maiores atractivos de fazer parte da NATO é o Artigo 5, que obriga os membros a responder em caso de agressão a qualquer um. Mas a activação desta cláusula não é automática, e carece de ratificação de todos os parlamentos, e da vontade dos Estados Unidos, que estão actualmente num processo de reaproximação com a Rússia. Nestas circunstâncias, entende que a adesão à NATO deve ser ainda um objectivo estratégico da Ucrânia?
Acredito que sim, embora entendamos que tanto a União Europeia como a NATO estão a mudar, devido às rápidas mudanças geopolíticas em curso. Continua a ser uma umbrela de segurança para nós, e a entrada da Finlândia e da Suécia (que quebrou o seu pacto de neutralidade de 200 anos), mostra a pertinência da nossa adesão, que está vertida na nossa Constituição. O Artigo 5 do Tratado da NATO foi usado só uma única vez, depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos. Sem pertencermos à Aliança, contribuímos na guerra do Afeganistão, transportando equipamento destinado às forças aliadas. Não obstante toda a discussão em torno do Artigo 5, a aliança dos países europeus, liderados pela França e a Alemanha, e ainda o Reino Unido, é muito importante. Apesar de o período do papel primordial americano na garantia da segurança europeia não ter chegado totalmente ao fim, porque para os próprios Estados Unidos esta aliança é muito importante e com vantagens mútuas, os países europeus têm falado muito sobre a necessidade de um mecanismo europeu; a França porque é o único país da aliança que tem armas nucleares na Europa, se não contar com o Reino Unido.
COM MOÇAMBIQUE: AS NOSSAS RELAÇÕES SÃO PESSOAIS, HUMANAS E HISTÓRICAS
Esta é a primeira vez que a Ucrânia tem um embaixador residente em Moçambique, o que é uma viragem nas relações bilaterais, acredita que há espaço para relações mais profundas, mesmo considerando a distância que separa os dois países?
Temos distância, mas ao mesmo tempo proximidade. Pelo menos historicamente, desde os meados do século passado, várias personalidades históricas desempenharam o seu papel em Moçambique. Desde antes da criação da FRELIMO, a Ucrânia Soviética, membro fundador das Nações Unidas, desempenhou o seu papel no apoio diplomático, político, financeiro e educacional na história da República Popular de Moçambique e da República de Moçambique, e acredito que a minha geração e outras, um pouco antes, se lembram disso, porque há muitos laços pessoais, humanos e históricos entre os dois países. Abrimos a nossa Embaixada em Moçambique em 2024, mas desde 1998 que os nossos embaixadores em Pretória, foram sempre acreditados em Moçambique, para não falar de visitas históricas do presidente Samora Machel e esposa, em Abril de 1986; todas as delegações moçambicanas que: foram à União Soviética também visitaram a capital da Ucrânia, Kiev.
Ainda nos tempos da União Soviética, o senhor embaixador esteve em Moçambique, no âmbito da cooperação bilateral. Qual foi especificamente a sua missão, e que memórias tem desse tempo?
Sempre nos lembramos da juventude com sorriso e saudades, apesar de ter sido um período difícil para Moçambique. Trabalhei aqui como tradutor-intérprete, com especialistas militares soviéticos que prestavam ajuda a Moçambique. Cheguei aqui em Agosto de 1984, com 22 anos de idade, e deixei Moçambique em Setembro de 1986. Lembro-me da rua e da casa onde vivi, dos departamentos do Ministério da Defesa Nacional onde trabalhei e do período quando trabalhei na aviação de transporte com os aviões Antonov-12, o que me permitiu conhecer todas as províncias de Moçambique, o povo, os costumes e tradições, e posso dizer que estávamos juntos, ombro a ombro com o povo moçambicano naqueles tempos difíceis; passamos as mesmas dificuldades, mas este foi um período que me marcou para toda a vida. Antes de saber que ia ser nomeado para Moçambique, sempre disse à minha esposa e à minha filha que tenho o sonho de as levar para o meu Moçambique.
Tendo em conta essa história de solidariedade, da contribuição da Ucrânia para a luta de libertação de Moçambique, e cooperação bilateral, sente que essa solidariedade ainda se mantém, neste momento difícil para a Ucrânia?
Acredito que sim, porque quando tenho a oportunidade de conversar com moçambicanos, quase sempre recebo palavras de apoio e de solidariedade. Nunca senti que houvesse algum desentendimento; quando assisto a televisão moçambicana, noto que os analistas tendem a ser objectivos na questão da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Sinto o mesmo ao nível do governo; nas minhas conversas com a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (Maria Lucas), e com o próprio presidente da República senti e ouvi as suas palavras, não só sobre o legado histórico que temos, não só palavras de agradecimento pelo apoio humanitário que apesar de toda esta agressão a Ucrânia está a providenciar em conjunto com os países europeus através do Programa Mundial para a Alimentação para as populações de Cabo Delgado, Nampula e outras províncias; tivemos pelo menos dois carregamentos no ano passado e outro em Março deste ano. Em 2024 foram 3 847,9 toneladas de milho; 1 636,5 toneladas de ervilha seca; e 440,4 toneladas de óleo
vegetal. São produtos da Ucrânia, mas financiados por Portugal, e isso garantiu apoio para 215 mil pessoas durante três meses. O último carregamento chegou à Cidade da Beira no dia 10 de Março deste ano e foram 1 399 toneladas de ervilha seca e 415,95 toneladas de óleo vegetal, financiados pela Itália e Coreia do Sul, para apoiar 343 mil pessoas para dois meses. É pouco, mas ouvi do presidente Chapo e da ministra Lucas não só palavras de agradecimento, mas também a sua visão sobre a nossa futura cooperação em áreas muito importantes para Moçambique e para a Ucrânia, tais como agricultura, agro-negócio, alta tecnologia, educação, saúde, indústria farmacêutica, defesa e no combate ao crime organizado; tráfico de drogas e corrupção. Existe esta vontade política de aproximação, de contribuir e de fomentar a continuação das nossas relações históricas.
Entrevista do Embaixador da Ucrânia, Rostyslav Tronenko / semanal Savana, 16 de maio de 2025